sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Uma vida da academia e das artes


“Nem sei me imaginar fora da USP.”

Matéria da Revista Espaço Aberto, outubro de 2009
Por Mariana Franco

Desde pequena, Lisbeth Rebollo tinha um gosto espacial pela pesquisa. Mexia nos arquivos do pai, lia documentos e jornais de época, organizava-os. Já naquele tempo gostava de lidar com a informação ainda não sistematizada. Ela cresceu num meio privilegiado, tendo desde cedo contato com o mundo artístico. Quando chegou a hora de se decidir por uma graduação, queria a área de humanas, mas não tinha certeza quanto ao curso. Na época ainda não existiam os cursos da Escola de Comunicações e Artes.

Em dúvida entre Letras, Filosofia ou Ciências sociais, recebeu orientação de seu pai para que fosse conversar com Sérgio Milliet, crítico de arte, grande humanista e amigo da família. Lisbeth seguiu as palavras que ele então proferiu: “Se você tem dúvida, faça Ciências Sociais, porque assim terá uma formação bastante ampla no campo humanístico e em seguida poderá se direcionar para o campo com o qual tem maior afinidade”.

Assim, ingressou na USP em 1967, onde graduou-se bacharel e licenciada em Ciências Sociais. Chegando ao mestrado, apresentou a seu professor dois projetos, um sobre arte e outro sobre antropologia. O orientador não teve dúvidas: “Nem vou ler o outro para não ficar com remorso”. Faltavam, na época, pesquisas no campo da arte, e foi para o estudo da Sociologia em artes visuais que ela se direcionou.

Trabalhou, em seu mestrado, sobre a contribuição do pintor Aldo Bonadei para a arte brasileira. Graças à sua ligação com o grupo Santa Helena, Lisbeth conseguiu com a família do pintor, então recentemente falecido, toda uma documentação inédita, sobre a qual pode se debruçar.

Lidando com pintura, descobriu muito material sobre crítica de arte. Tendo desde pequena proximidade com o crítico Sérgio Milliet, quis conhecer melhor seu trabalho. Seu doutorado desenvolveu-se então sobre crítica de arte e em torno de Milliet.

Em 1983 passa a trabalhar no MAC, onde dirige a Divisão Científica, lidando com acervo e pesquisa. Não havia então carreira docente nos museus. Desejosa de dar continuidade à carreira e aos estudos, ingressa em 1987 na carreira docente, na Escola de Comunicações e Artes. Dentro da ECA, no Departamento de Comunicações e Artes, desenvolveu diversas disciplinas e linhas de pesquisa, sempre ligadas à crítica de arte e arte contemporânea. Em 1994 foi nomeada para a diretoria do MAC, função que desempenhou até 1998.

Na sua livre-docência, chegou ao campo das exposições de arte, completando com ela os assuntos já abordados em suas teses de mestrado e doutorado. Entre os anos de 1996 e 2000, desenvolve pesquisa sobre a comunicação no espaço das exposições de arte contemporânea, em parceria com uma comissão universitária francesa. Passa pequenos períodos de tempo em pesquisas na França, como que reatando a ligação com um lugar que já lhe era importante na infância.

Agora se encontra na diretoria do MAC novamente, em gestão até 2010. Quando perguntada sobre os motivos de sua ligação tão longa com a Universidade, diz ser o gosto pelo estudo e pesquisa que a mantém aqui. “Estudei e toda minha carreira profissional se desenvolveu aqui. Nem sei me imaginar fora da USP! Sempre me voltei para a vida universitária e acadêmica. A universidade é o campo por excelência para a construção desse projeto: estudo, pesquisa e divulgação para o próximo do que você consegue colher”, declara.

O perigo na porta de casa

Crianças desaparecem próximas de suas casas – esse pesadelo pode acontecer a qualquer família, mas pode também ser evitado

Matéria da Revista Espaço Aberto, novembro de 2009
Por Mariana Franco

Em revistinhas, cartazes, no verso dos recibos dos pedágios ou das lotéricas, em caixas de leite e e-mails, vemos fotos de crianças desaparecidas. Apesar de nos depararmos com essas evidências diariamente, achamos que esses dramas só vão bater na porta dos outros, não nas nossas. Anualmente 204 mil pessoas desaparecem no Brasil, sendo 40 mil só de crianças e adolescentes. Destes, cerca de 15% não retornam aos seus lares. Mas como, afinal, desaparece uma criança?

“Nem sempre, como se pode imaginar, o desaparecimento de uma criança é feito por um terceiro, um raptor. Muitas crianças saem de casa voluntariamente, em geral por problemas no ambiente familiar”, explica Gilka Gattás, coordenadora do Projeto Caminho de Volta, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

O Caminho de Volta realiza um trabalho de auxílio às famílias de crianças e adolescentes desaparecidos que tenham registro em Boletim de Ocorrência. O auxílio nas buscas é feito a partir de um rastreamento genético (DNA) da família para ser cruzado com as informações genéticas das crianças que são encontradas, para sua identificação. Além disso, trabalha com acompanhamento psicológico das famílias e das crianças, quando encontradas.

Como esclarece Gilka, grande parte dos desaparecimentos de crianças são casos de fuga, cujos motivos são complexos, mas são, em sua maioria, aliados a um convívio familiar conflituoso. É essa a explicação também da grande reincidência de casos de fugas – há registros de crianças que fogem de suas casas e retornam mais de quinze vezes.

Benedito Rodrigues dos Santos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal, realizou uma pesquisa com crianças que saíram de casa em São Paulo e em Nova York. Apesar das grandes diferenças entre os países, os resultados encontrados foram semelhantes.

“É o mau convívio familiar que leva essas crianças às ruas. Temos um verdadeiro descompasso entre a composição clássica de família e a realidade das famílias brasileiras. Vemos famílias recombinadas nas quais a distribuição de afeto é causa de conflitos, famílias com problemas de alcoolismo, drogas ou que utilizam a punição corporal como forma de educação cotidiana. Essas relações influenciam negativamente o desenvolvimento de uma criança”, afirma. Linamara Rizzo, médica também integrante do Caminho de Volta, lembra que “criança precisa de educação e escola, mas também de um convívio social e familiar bom para seu desenvolvimento”.

Parte dos desaparecimentos, porém, não se encaixa nos casos de fuga. São casos de real subtração por terceiros, e esses são muito difíceis de serem resolvidos. “São crianças que desapareceram em circunstâncias parecidas e das quais não se tem notícia por longo tempo. Desaparecem brincando na porta de suas casas, no caminho da escola ou da padaria sozinhas, sempre muito próximas de casa”, explica Ivanise Espiridião da Silva, presidente da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD/Mães da Sé).

“As crianças que desaparecem são em geral de nível socioeconômico muito baixo, que passam muito tempo sozinhas, tornando-se alvos fáceis. Aquela mãe que tem três, quatro, cinco filhos e é mãe e pai deles, sai cedo para trabalhar e os deixa sozinhos em casa.

Alguém oferece uma carona ou pede uma informação a essas crianças e elas não têm noção do perigo que estão correndo”, continua.

Medidas muito simples de prevenção, como não deixar seus filhos saírem desacompanhados à rua, orientá-los para não conversar e não aceitar nada que estranhos lhes ofereçam, fazê-los memorizar seu nome completo, os nomes dos pais, endereço e telefone de casa, podem ser eficientes.

“Às vezes as dicas e orientações dadas às crianças parecem simples, banais, mas nos casos concretos verificamos que muitas crianças são subtraídas ou colocadas em situações de risco atraídas pela oferta de doces, brinquedos, presentes. A informação para esses casos é realmente essencial”, afirma Ana Cláudia Machado, delegada do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas do Estado do Paraná.

O registro e busca de um desaparecido deve ser feito imediatamente. Existe uma subnotificação muito grande dos casos de desaparecimento – muitas famílias não chegam às delegacias, e muitas das que chegam não conseguem fazer o Boletim de Ocorrência. “Existe um mito de que se deve esperar algumas horas para fazer o BO, pois a criança pode estar na casa de algum amigo ou só perdida. Essas são horas preciosas que reduzem imensamente a chance de a criança ser encontrada com vida”, afirma a médica Linamara.

“Quando a busca não é imediata, se há espera de 12, 24 ou 48 horas, a probabilidade dessa criança não ser encontrada é muito maior. Se a delegacia se recusar a iniciar uma busca imediata, os pais devem buscar o Conselho Tutelar ou a Corregedoria de Polícia”, complementa Ana Cláudia.

A dor de um filho perdido




A filha de Ivanise, Fabiana Espiridião da Silva, desapareceu há 13 anos, quando tinha 14 anos de idade. Após o episódio, ela fundou a Mães da Sé para auxiliar outras mães que passavam pelo mesmo drama.

“Minha filha sumiu a 120 metros de casa. Nos primeiros meses após o desaparecimento dela eu estava chegando ao limite da loucura. Não dormia, não comia, só tomava café e fumava um cigarro atrás do outro. Passei uma madrugada procurando por ela pela Praça da Sé, na República, no Anhangabaú. Acontece que nós, enquanto mães, não estamos preparadas para perder nossos filhos. Estamos preparadas para que eles nos enterrem.

A dor de ter um filho desaparecido é muito maior do que a dor de ter um filho morto. Se eu descobrisse que minha filha está morta, teria um luto real. Teria saudades dela para sempre, mas teria certeza do que aconteceu. Mas eu não sei, e isso me incomoda o tempo todo. Hoje, minha filha está com 27 anos, e eu fico me perguntando: Como será que ela está? Será que engordou? Emagreceu? Se está viva, por que nesses 13 anos nunca deu notícias? Se morreu, por que o corpo nunca foi encontrado?

Acontece que quanto mais o tempo passa, mais a dor vai ficando só nossa. As outras pessoas vão esquecendo, vão tocando suas vidas, mas só as mães nunca vão esquecer. O sentimento acaba sendo só nosso. É um vazio, como se tivessem arrancado parte de mim, porque arrancaram realmente. É algo que não desejo a ninguém, e por isso é importante a prevenção, por parte dos pais, das escolas e da comunidade.

Nos 13 anos de trabalho da Mães da Sé, 2.122 pessoas foram encontradas. Delas, 196 foram meninas encontradas mortas. Eu digo a essas mães: ‘Pelo menos sua busca terminou, você sabe o que aconteceu’. Mas em cada uma dessas pessoas que nós encontramos, minha Fabiana vive um pouquinho. Essas mães são muito importantes. Nós formamos aqui uma família, unida pelo mesmo sentimento e pelo mesmo objetivo”, relata.

Da saída de casa à prostituição



Pesquisa aponta para ligação entre conflitos familiares e fatores sócioeconômicos com a entrada de adolescentes na exploração sexual

Matéria da Revista Espaço Aberto, novembro de 2009

Por Mariana Franco


A pesquisa Desaparecimento e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Estado de São Paulo, realizada pelo projeto Caminho de Volta, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), teve por objetivo jogar luz sobre uma questão até então obscura: a relação entre desaparecimento e exploração sexual.

Os resultados da pesquisa foram divulgados durante a I Jornada Internacional Sobre Desaparecimento e Exploração Sexual, acontecida em 6 e 7 de outubro, no Memorial da América Latina. Eles apontam para uma relação próxima, mas nem sempre óbvia, entre os dois acontecimentos e ressaltam a complexidade dos fatores envolvidos.

Na maioria dos casos examinados pela pesquisa, entre Boletins de Ocorrência e dados de uma ONG da Baixada Santista, fica claro que os fatores comuns para o desaparecimento e exploração são os problemas socioeconômicos e conflitos no ambiente familiar pelos quais passam as crianças e adolescentes. Muitas meninas saem de casa devido a problemas intrafamiliares, sejam maus-tratos, violência, abuso sexual, alcoolismo ou brigas constantes e, nas ruas, acabam entrando na prostituição para conseguir se sustentar.

Richard Estes, professor da Universidade da Pensilvânia, EUA, que estuda a exploração sexual na América do Norte, explica: “Uma vez que a criança foge de casa, nas ruas, o que tem a oferecer para sobreviver? Por alguns dias pode vender alguns pertences, se os tiver, mas depois só tem o seu corpo, e por isso a ligação entre desaparecimento de crianças e exploração sexual é tão próxima”.

Renata Coimbra Libório, especialista em Psicologia do Desenvolvimento Humano em Situações de Risco, da Unesp de Presidente Prudente, acompanha na cidade adolescentes inseridas na prostituição. Muitas das meninas têm trajetórias parecidas: conflitos dentro de casa que as levam para as ruas e necessidades materiais que as fazem ver a entrada na prostituição como única alternativa. Elas também não se adaptam nas escolas – as instituições, professores e diretores têm dificuldade para acolhê-las e integrá-las aos outros alunos. É expressiva ainda a ocorrência de problemas psicológicos e/ou psiquiátricos nessas adolescentes, apresentando casos de depressão, mutilação e tentativas de suicídio.
Para Renata, a existência da exploração sexual e prostituição de adolescentes é um problema claramente ligado à exclusão social gerada pela sociedade, que falha no oferecimento de espaço para essas adolescentes que rompem laços com suas famílias.

Além disso, uma questão cultural faz com que em geral exista denúncia dos casos de exploração de crianças, mas não os de adolescentes. Há um falso pensamento de que as adolescentes escolhem essa vida conscientemente e que por isso não precisam de proteção. A pesquisa da FMUSP alerta, inclusive, para esse dado importante: os registros de exploração e abuso sexual em Boletins de Ocorrência têm números muito abaixo da realidade.

Essa faceta do problema, lembra Renata, está intimamente ligada ao machismo presente na nossa sociedade: muitos casos de abuso sexual não são denunciados por causa da mentalidade de inocentar o homem, pois ele estaria seguindo seus “instintos” e “necessidades”, não sendo culpado, então, pelo abuso. Como citou Eduardo Rezende de Melo, presidente da Associação Brasileira dos Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e Juventude, “o ser humano está desde sempre relacionado à violência, e isso afeta nossa capacidade de tolerância, o que é inadmissível”.

A inserção em uma realidade de violência explica ainda outros resultados surpreendentes da pesquisa feita na Baixada Santista. As adolescentes envolvidas com a prostituição não se sentiam exploradas, nem entendiam a exploração como violência. Isso porque estão acostumadas a um tipo de sociabilidade que as leva a encarar esse comportamento como natural.

“Essas meninas não compartilham da nossa concepção burguesa ocidental de sexo vinculado ao amor. Para elas o sexo é uma moeda de troca, meio de se obter dinheiro, favor ou proteção, e isso lhes parece comum”, explica Tatiana Landini, professora da Unifesp que participou da pesquisa.

Para a psicóloga Renata Libório, o trabalho para começar a reverter a situação passa por duas linhas. Uma na educação, na qual a escola deveria trabalhar com as crianças, desde o ensino fundamental, condutas auto protetoras e que as incentivassem a compreender a diferença entre uma vida sexual desejada e vida sexual abusiva. A outra é a questão cultural, em que a sociedade teria de aprender a não aceitar esses problemas como naturais, e denunciar o que muitas vezes fica velado.

Renata, entretanto, não deixa de lembrar onde está a raiz do problema. “O problema da exploração sexual de menores está ligado aos problemas socioculturais históricos, e dificilmente teremos uma solução para isso, enquanto estivermos dentro desse sistema econômico de extrema exploração do ser humano”, afirma.

Acordo internacional facilita combate ao tráfico de seres humanos

Cooperação entre FMUSP e Universidade de Granada avança na identificação genética de crianças desaparecidas

Matéria da Revista Espaço Aberto, novembro de 2009
Por Mariana Franco


Ao final do primeiro dia de palestras da I Jornada Internacional Sobre Desaparecimento e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em 6/10, foi firmado um acordo de colaboração entre a Faculdade de Medicina da USP e a Universidade de Granada, Espanha, para o projeto DNA – Prokids. O projeto pretende lutar contra o tráfico de seres humanos mediante a identificação genética das vítimas, principalmente menores, e seus familiares.

Jose Lorente, do Departamento de Medicina Legal e Forense da Universidade de Granada, explicou que estrangeiros menores de idade que entram ilegalmente na Espanha têm garantidos por lei a permanência no país e o acesso aos direitos básicos como alimentação e educação. Isso faz com que muitas crianças e adolescentes, provenientes principalmente da África, cheguem sozinhas ao país, atravessando o Estreito de Gibraltar, para que depois de completar a maioridade, possam trazer também seus familiares.

Esses menores, sozinhos em um país desconhecido, são presas fáceis para aliciadores que os levam para a exploração sexual ou para a adoção ilegal. Existem ainda redes bem estruturadas de tráfico de seres humanos, e a Espanha é um destino conhecido de imigrantes para exploração sexual – lembramos ainda dos casos de brasileiras impedidas de entrar no país por suspeita de irem para trabalhar na prostituição.

“Lamentavelmente não há muitos casos de cooperação entre a polícia europeia e a de outros países na questão de imigração e desaparecimento de menores nas áreas fronteiriças. Há casos em que localizamos as menores como objeto de exploração sexual, mas é muito difícil identificar em seus países suas famílias. É necessária a utilização de técnicas de DNA ou de fotografia para permitir essa identificação”, relata Lorente.

“O Dna – ProKids é um programa que pretende ter dados de DNA das crianças de todos os países do mundo, principalmente daqueles que estão fora de suas famílias, em abrigos ou nas ruas, para cruzar esses dados com os de famílias que perderam seus filhos. Isto deve ser feito dentro de cada país, com programas como o Caminho de Volta, e dentro de uma cooperação internacional. O acordo que se firmou aqui é para facilitar o trabalho nessa área”, conclui.

Respirar para emagrecer

A percepção corporal e a capacidade de unir o corpo à vida, aos sentimentos e sensações, são imprescindíveis para a perda de peso
Matéria de Revista Espaço Aberto, outubro de 2009
Por Mariana Franco

Sentar-se, tirar os sapatos, sentir os pés no chão e a respiração fluindo. Afinal de contas, em que isso poderia auxiliar no emagrecimento?

Esta pode ser a pergunta a passar pela cabeça de alguém que chega na atividade aberta do Prato. Por cerca de vinte minutos, os participantes ficam sentados em silêncio, olhos fechados, convidados a perceber cada parte de seu corpo e sua respiração. Depois trocam as experiências que tiveram durante a atividade em uma conversa.

“Lembrei-me durante a atividade da sensação que tenho ao dormir, quando a gordura me oprimia, me impedindo de respirar. É uma situação horrível. Por causa disso, sinto necessidade de emagrecer”, relatou Cristina (nome fictício), uma das participantes do grupo.

Marília Salgado, psicóloga do Prato, explica que o trabalho de estímulo à percepção corporal é importante para que se tome consciência das necessidades e alertas que o corpo nos comunica. “As pessoas muitas vezes tratam seus corpos como objetos, como máquinas que devem funcionar. Há um distanciamento entre esse corpo e a vida da pessoa, suas sensações, sentimentos, desejos. As pessoas chegam aqui e nos dão seus corpos como objetos. Elas não querem emagrecer, querem uma receita para que nós as emagreçamos, mas não é o que fazemos”, afirma a psicóloga.

Rosiane (nome fictício), que fora à reunião pela primeira vez, manifestou sua decepção com o tipo da atividade. “A gente vem e quer um resultado já, uma receita do que pode ou não comer. Quando percebe que não é assim, fica triste. Mas é preciso continuar, né?”

“Usualmente percebemos que pessoas obesas fazem coisas demais, têm necessidade de preencher todo seu tempo, e têm assim um maior distanciamento do lado afetivo-emocional de seu próprio corpo. Essas pessoas costumam ser mais racionais e se cobram muito também. Muitas vezes, exatamente por isso, elas sabem de tudo que têm de fazer para emagrecer, mas não conseguem colocar em prática” continua Marília.


Sônia (nome fictício), terapeuta natural e graduada em letras por duas vezes pela USP, relata exatamente essa disparidade entre a teoria e a prática. “Estou participando das atividades há cinco meses. Por enquanto estou aprendendo, mas nem sempre consigo colocar em prática.”

“Para emagrecer é necessária uma mudança de hábitos. Dentro dessa mudança, e necessária também um diferente modo de relacionar-se com o corpo. É um desafio dar-se um tempo para perceber-se, é uma mudança que deve ser gradual. Mas para atingir o emagrecimento, para conseguir por em prática aquilo que se sabe, a pessoa precisa ter a junção de seu corpo à sua vida, seus sentimentos, desejos, sua história”, conclui Marília.

Um longo tratamento

Não há cura para a obesidade – a solução do problema vem com mudanças permanentes no estilo de vida

Matéria da Revista Espaço Aberto, outubro de 2009
Por Mariana Franco

Diabetes. Hipertensão. Triglicéride. Colesterol. Falta de ar. Apneia noturna. Dores no corpo. Fazer exercícios físicos. Manter uma alimentação balanceada. Comer em pequenas quantidades, várias vezes ao dia. Controlar a ansiedade e os impulsos. A maioria das pessoas sabe quais problemas de saúde o excesso de peso traz, e sabe também o que se deve fazer para emagrecer. Por que então é tão difícil conseguir?

O sobrepeso e a obesidade são problemas de saúde pública mundial. A porcentagem de pessoas acima do peso na população mundial está entre 50% e 60%. É uma doença crônica, que se desenvolve ao longo dos anos.

“Nós vivemos atualmente em um ambiente no qual é mais fácil a obesidade acontecer”, afirma Anete Abdo, endocrinologista do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato) do Instituto de Psiquiatria do HC. “Temos horários de trabalho que não favorecem o exercício de uma atividade física, ocupações e lazer mais sedentários, alimentação à base de industrializados. Não há uma cura, para se tratar é necessária uma mudança permanente no estilo de vida.”

O excesso de peso traz diariamente sofrimentos à vida de uma pessoa. Além das questões de saúde, vivemos em uma sociedade em que o padrão estético do indivíduo magro é o valorizado. Privar-se de uma praia por não querer vestir uma roupa de banho ou sentir-se constrangido ao ter de passar na catraca do ônibus são exemplos de problemas constantes, que levam ao desejo de livrar-se a qualquer custo desse tipo de sofrimento. Quantos já não pensaram “se pudesse passar uma tesoura e tirar daqui uns 5kg ou 10kg, ficaria feliz”?

“Devido a esse desejo de livrar-se do problema, sempre surgirão supostos tratamentos miraculosos para resolver tudo de forma rápida e sem sofrimentos. E sempre surgirão pessoas capazes de qualquer coisa para acreditar nesses tratamentos”, afirma Egídio de Lima Dórea, médico do Ambulatório do HU. “Se fórmulas mágicas funcionassem, só teríamos pessoas magras na face da Terra”, brinca Anete.

É importante lembrar que, exatamente por muitas pessoas estarem dispostas a tudo para emagrecer, muitos “tratamentos miraculosos” falsos aparecem, inclusive apresentando-se caluniosamente como tratamentos desenvolvidos pela USP ou por outras universidades de renome. “Não se faz uma cirurgia em qualquer lugar, assim como não se trata obesidade em qualquer lugar”, lembra Dórea, “o lugar certo para tratar da obesidade é no médico”.

A obesidade é causada não por um, mas por diversos fatores. Alimentação, genética, fatores emocionais e hábitos de vida compõem um mosaico específico para cada pessoa, que igualmente deve ser tratado de forma específica. É tentando abranger todos esses fatores, e conscientizar os pacientes de que não há cura possível, mas mudança de hábitos permanente e efetiva, que trabalha o Prato.
O projeto oferece atividades que abordam questões nutricionais, físicas, psicológicas e educacionais, entre atividades abertas a qualquer pessoa e atividades fechadas somente aos participantes. “O paciente precisa conhecer-se para entender o que se passa com ele, e assim saber qual fator da obesidade tem de tratar”, afirma a endocrinologista.

Dentre as atividades fechadas, merece atenção o Grupo Família que, além do paciente, traz para o tratamento alguém de sua família. Em geral as pessoas de uma mesma família compartilham dos mesmos hábitos de vida. Não basta então tratar apenas uma pessoa, toda a família tem de se modificar.

“A obesidade aumenta também por contato social”, avisa Alexandre Menegaz, orientador de Educação Física do Prato. “Quanto mais na condição obesa você se encontra, mais você fará atividades sedentárias e mais suas companhias serão também obesas, desenvolvendo a mesma gama de atividades sedentárias”, explica. Daí a importância da ação com toda a família, e não apenas com um indivíduo.

Nos casos de obesidade infantil, o princípio de tratar a família é ainda mais importante, pois a criança adota os hábitos de vida que os pais lhe proporcionam. Devido a mudanças de hábitos e por questões de segurança, as crianças perderam também o hábito e os espaços para brincar. Só esta seria atividade física suficiente para um pequeno, mas as diversões que eles encontram hoje estão nos videogames, computadores e celulares.

"A criança obesa é alvo fácil para o bullyng, é o bode expiatório. Ela fica mais frágil, tem seu rendimento escolar alterado e acaba afastando-se do convívio social, passando mais tempo em casa, no computador e videogame. Com os pais fora de casa acaba também comendo mais alimentos industrializados”, observa Renata Pinto, orientadora de Educação Física do Prato.

Saiba como a percepção corporal pode auxiliar no emagrecimento clicando aqui.

Serviço:
As atividades são abertas a qualquer pessoa interessada. Não é necessário fazer inscrição. Durante as atividades abertas, são passadas listas de interesse para ingressar nas atividades fechadas do Prato.
Atividades físicas às segundas-feiras, das 10h30 às 11h30, no 4º andar, sala 3.
Reuniões Psicoeducacionais, dias 19/10 e 30/11, das 14h30 às 16h, no Anfiteatro Principal do 1º andar.
Reuniões de Psicodrama, dias 23/10 e 4/12, das 8h15 às 9h45, no 4º andar, sala 4.
Local: Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Rua Dr. Ovídio Pires de Campos, 785, dentro do complexo do HC.
Fone: (11) 3069-6974
Mais informações: http://www.hcnet.usp.br/ipq/prato/ ou prato.ipq@hcnet.usp.br

Prato – Projeto de Atendimento ao Obeso
Atividades abertas:

Ambulatório do Hospital Universitário

O funcionário ativo, aposentado, seus dependentes e moradores da região do Butantã podem participar do tratamento para obesidade do HU, que conta com palestras educacionais, acompanhamento nutricional e físico. Para participar é necessário passar primeiramente por uma consulta com clínico geral no hospital, para posterior encaminhamento.

Local: av. Prof. Lineu Prestes, 2.565, Cidade Universitária
Fone: (11) 3091-9200

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Escalada de um temor

A situação de alerta da população, causada pela gripe A, excede uma preocupação natural e leva a perigosos exageros

Matéria da Revista Espaço Aberto, 5 de setembro de 2009
Por Mariana Franco


Se extraterrestres invadissem a Terra, provavelmente todas as pessoas e todas as nações estariam unidas no combate a essa invasão. O que estamos vendo não é muito diferente: uma estratégia de guerra para conter o avanço de um novo vírus, o H1N1. Temos hospitais lotados, adiamento de aulas e eventos, corrida para fabricação de vacinas, pessoas usando máscaras no dia a dia, álcool em gel instalado em locais públicos para higienização das mãos.

É da natureza humana o comportamento de preservação da espécie e é esse comportamento que agora estamos presenciando. “Existem estresses, acontecimentos no planeta, que ameaçam a coletividade. Essas ameaças são como fagulhas que desencadeiam reações biológicas de medo psicológico: um medo com fundamento, mas exagerado”, explica Luiz Vicente Figueira de Mello, do Ambulatório de Ansiedade (Amban) do Instituto de Psiquiatria do HC.

Desde abril, quando as primeiras suspeitas e casos foram reportados no México e nos EUA, o mundo vem acompanhando a evolução da pandemia e sua disseminação pelo globo. O estado de alerta foi crescendo exponencialmente à evolução dos casos. No Brasil, os primeiros casos confirmados apareceram no início de maio. O estado de alerta seguido do medo, entretanto, desenvolveu-se nos meados de junho e intensificou-se entre julho e agosto.

As pessoas estão amedrontadas com a gripe A, porém, além do natural. Há abundância de informações desencontradas e alarmantes, somos sugestionados a todo instante pelos meios de comunicação e pelas pessoas à nossa volta. O novo vírus se apresenta, assim, como uma grande ameaça à coletividade, e nós reagimos com um medo desmedido.

“Diante de um inimigo em comum, nos unimos num coletivo. Dentro deste coletivo podem existir comportamentos individuais exagerados, vindos de pessoas portadoras de algum transtorno ou fobia, e esses exageros individuais contribuem para alastrar ainda mais o sentimento de alerta”, continua Mello.

Desde o fim de julho, após anúncio do adiamento das aulas em escolas e universidades públicas e privadas como medida preventiva, a situação tornou-se mais crítica. Os hospitais ficaram ainda mais lotados com pacientes exigindo o teste de detecção do vírus, procedimento que deveria ser utilizado só para casos específicos. Pessoas passaram a usar máscaras no dia a dia, em aeroportos, rodoviárias, transportes públicos. O álcool em gel começou a sumir das prateleiras de farmácias e supermercados – e a aparecer em banheiros, refeitórios, nas bolsas das pessoas. O medicamento Tamiflu, receitado apenas para casos graves e pacientes dos grupos de risco, passou a ser procurado com voracidade, não só a partir de receitas médicas, mas também de vendas no mercado negro e pela internet.

Essa reação de alerta da população, entretanto, já não está na fronteira de uma reação natural. O tratamento dado ao acontecimento, com informações desconexas e alarde inapropriado, desorientou a população e proporcionou uma situação de pânico coletivo. “As pessoas vêm ao hospital desesperadas por causa de uma dor de garganta, achando que basta estar gripado para estar à beira da morte”, afirma Fábio Franco, presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário (CCIH-HU). “Estão confusas, este temor em exagero não é justificado”, completa.

Para Wilson Bueno, professor do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, a mídia tem papel decisivo nessa onda de pânico, induzindo a população a um temor desnecessário.

“A mídia não perde oportunidade de noticiar, e nesse caso dá vazão a qualquer fonte, com informações desconexas. Cada médico ou hospital diz uma coisa, divulga-se cada morte, e a mídia acaba amplificando a importância ou periculosidade do momento vivido, dando a impressão à população de que estamos diante de uma grande ameaça. A mídia ainda se porta irresponsavelmente, divulgando cada morte com grande alarde e fazendo perigosas conjecturas”, afirma Bueno.

Atitudes exageradas e irresponsáveis, como a procura indiscriminada pelo Tamiflu sem receita médica, são realmente perigosas. Como alerta a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, nenhum medicamento deve ser tomado sem prescrição médica, pois todos podem causar efeitos colaterais.

Além disso, com o uso indiscriminado do Tamiflu, é possível que o vírus H1N1 se torne resistente ao remédio, que hoje é o único existente. Os medicamentos encontrados no mercado negro, ainda, têm grande probabilidade de serem falsificados, podendo causar sérios problemas a quem os ingerir.

Bueno acredita ainda que por trás das notícias estejam poderosos interesses do lobby dos laboratórios farmacêuticos, que estão lucrando com a situação. Além do medicamento Tamiflu, que tem sido muito procurado, os antigripais comuns também aumentaram suas vendas, tanto que o governo proibiu temporariamente a veiculação de anúncios publicitários desses medicamentos nas últimas semanas de julho. O mesmo acontecera anos atrás com a epidemia de dengue: os laboratórios lucraram até o momento em que, pela legislação, passou-se a colocar o informe no final dos anúncios de que determinados medicamentos eram contraindicados no caso de suspeita de dengue.