quarta-feira, 12 de março de 2008

Numa plataforma de trem...

Eu achava que só veria em cenas de filmes que retratassem o século passado... mas vi, na minha frente. Eu estava dentro do trem (que já não é mais maria-fumaça e anda a 60 ou 70 km por hora ladeando a marginal) e vi pela janela um menino sentado na plataforma.
Uns doze anos, tênis, calça jeans, camiseta cinza, mochila, boné, cabelos um pouco compridos...
... um rapazinho se formando, mas nos lábios um sorriso ainda infantil....
... e nas mãos uma miniatura de um vagão de trem, exatamente igual à cópia ampliada em que eu estava sentada, observando ele observar o trem grandão e brincar distraidamente com o pequeno entre as mãos.

Então ainda existe infância num mundo de computadores e video-games...
Então um menino de doze anos ainda brinca....
Então os trens ainda fascinam as crianças... (não mais as marias-fumaças, mas o trem espanhol azul, prateado e vrmelho da CPTM ! )

Então eu me alegro!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A devida Punição

Atenção! Tema polêmico!

Queria ter escrito esse texto semanas atrás, logo que assisti a um debate no Opinião Pública da TV Cultura, sobre aborto e planejamento familiar, mas só agora arranjei tempo. Já tinha discutido e pensado muito sobre essa questão do aborto, mas só com esse debate consegui por fim clarear minhas idéias e definir minha posição.
Primeiro quero deixar bem claro: o aborto é uma coisa horrível; um procedimento perigoso se não feito com todos os devidos cuidados; doloroso, principalmente no psicológico; e que marca provavelmente para sempre quem o faz. Por isso existe uma diferença básica que deve ser entendida: ser a favor da DESCRIMINALIZAÇÃO do aborto é diferente de ser a favor do aborto.
No debate, um dos professores que se posicionava contra, se dizia defendendo os direitos do feto- a futura criança- pois desde sua concepção, assegurado pela nossa constituição, em primeiro lugar está o direito à vida. Mas é muito precário assegurar o direito de um feto de nascer, sem assegurar, porém, o seu direito de crescer e viver com dignidade. Num país como o nosso, de grande pobreza e muitos problemas, eu acredito que seja até hipocrisia uma camada da elite defender ideologicamente um direito que está só no papel sem se confrontar com a realidade. Porque problemas sociais não se resolvem apenas com idéias, mas com ações concretas. E nada melhor para pautar ações concretas do que a realidade.
Nossa realidade é a de um país onde se realizam muitos abortos na clandestinidade. Aqueles que podem pagar vão a clínicas- ilegais- mas onde o trabalho é bem feito, e pagam por isso um alto preço. Os que não dispõem desse dinheiro optam por soluções mais baratas, e que em um grande número de casos provocam complicações- não raro com a morte de mães e bebês.
Com esse panorama, uma primeira afirmação que podemos fazer é que a descriminalização do aborto traria a igualdade de direitos entre aqueles que podem e os que não podem pagar pelo procedimento hoje.

O que leva as mulheres a optarem pelo aborto, não é só a questão material, a pobreza, portanto é um erro tratar da questão focando-se somente nisso. O que leva à opção do aborto são questões muito pessoais, que variam de mulher para mulher, de seu estado, sua vida, seu psicológico.
Da mesma maneira que uma adolescente ou uma mãe que já tenha outros quatro filhos podem optar por continuar com sua gestação com felicidade, outra mulher pode não querer ter esse filho. É justo então defender a vida desse feto, que será depois uma criança que não foi desejada pela mãe; talvez se tornando manchete de jornal como bebê abandonado, jogado em rios ou represas; ou então crescendo com problemas, seja nas ruas ou dentro de casa, psicologicamente.
Pois para a maioria das mulheres, mesmo quando não é planejado, engravidar é uma benção e uma felicidade, e o amor pelo filho que está em seu corpo nasce rapidamente e é enorme. Quando, pelo contrário, uma mulher tem razões tão fortes para optar pelo aborto, contrariando a sua própria natureza de mãe, provavelmente este é o melhor caminho, tanto para ela quanto para a criança. As marcas psicológicas que um aborto deixarão nela, por si só, já são uma punição pelo seu ato. Transformar essa mulher numa criminosa comum por isso é desnecessário, e levá-la presa nas condições carcerárias que temos em nosso país é um ato quase tão violento quanto o que ela praticou ao abortar. Na verdade essas mulheres que estão em situação tão desesperadora a ponto de fazer um aborto necessitam é de paz e apoio, não de um lugar na prisão.


-> Dica: O filme romeno "4 meses, 3 semanas e 2 dias" mostra friamente como uma jovem estudante faz um aborto na clandestinidade, na Romênia comunista. Sua fragilidade e a dor por que ela passa faz pensar sobre a situação que leva uma mulher a fazer um aborto e a punição por que ela passa com o sofrimento, que é potencializado pelas condições em que o procedimento é realizado. (ah, se não tiver um estômago forte, é melhor não assistir esse filme!)

domingo, 16 de dezembro de 2007

Canudos - O Socialismo Natural

A Comuna de Paris nasceu de um movimento espontâneo de massas, e conduziu pela primeira vez a classe operária ao poder, mesmo que no âmbito de apenas uma cidade e pelo período de alguns meses. Alguns estudiosos até mesmo afirmaram que foi a única experiência puramente socialista da história.
Ora, por que não afirmar que o Arraial de Canudos foi também uma experiência socialista? Este nasceu também de um movimento espontâneo de massas - massas sertanejas exploradas pelo sistema coronelista que dominava o nordeste. Ao contrário do que se afirmava na época, não podemos considerar Conselheiro e seus seguidores monarquistas. Eles foram levados sertão adentro, embalados por fervor religioso, não por serem anti-republicanos; mas por estarem fartos da desigualdade, exploração e miséria em que viviam, a ponto de se aventurar atrás de um líder religioso numa busca por uma vida mais digna.
Todos que chegavam a Belo Monte deixavam com Conselheiro tudo quanto possuíam, em troca de condições de moradia e cultivo da terra para uma sobrevivência com um mínimo de dignidade. Apesar da extrema pobreza, todas as famílias tinham casa; e eram realizadas obras para a comunidade, como a nova igreja que se planejava construir, e cujo caso das madeiras compradas em Juazeiro foi o estopim da guerra.
O socialismo que existiu em Canudos não foi inspirado em Marx, nem baseado em partidoa operários. Nasceu espotaneamente, confirmando que é um caminho natural procurar alternativas para o modelo de desigualdade presente em quase todo o mundo, em que poucos têm muito e muitos não têm quase nada.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Carta ao presidente

Em suas numerosas viagens por todo o mundo, para as câmaras e políticos das mais diversas nacionalidades, nosso presidente repete o mesmo discurso de que precisamos tomar medidas para frear o aquecimento global, e propõe como solução milagrosa a todo o mundo a utlização do etanol em substituição do petróleo. Mas desconfio que ele esteja muito mais interessado em vender nosso produto e tecnologia do que em procurar saídas para o aquecimento global, porque esse problema é bem maior do que seus olhos parecem ver. Ele afirma que a produção de cana não agrava a o problema da fome, pois este está ligado não à escassez de alimentos, mas à falta de dinheiro para comprá-los, e está certo, mas será, senhor presidente, que o senhor não percebe que com menos terras produzindo alimentos eles terão que vir de longe, encarecendo e impossibilitando às pessoas mais humildes o acesso a ele? E, senhor presidente, se o senhor está tão preocupado com o aquecimento global o senhor deve estar ciente de que as grandes vilãs de liberação de gás carbônico na atmosfera brasileira são as queimadas, não? E que na cultura da cana se usa largamente as queimadas, certo? E também que a Amazônia queima dia a dia, diminuindo e se desrtificando, não?
Será, senhor presidente, que o senhor está mesmo interessado no meio ambiente ou só quer vender o nosso peixe (que mudou do nome de álcool dos tempos da ditadura para o etanol do séc. XXI ) , para benefício da balança comercial e dos ricos usineiros e industriais do ramo que verão seus negócios prosperarem ainda mais, em detrimento dos trabalhadores que vivem em condições deploráveis, não raras vezes morrendo de exaustão para colher o "ouro verde", e da população que mora nas áreas que foram invadidas pela cana, que se sentem, dia a dia, vivendo numa terra de chamas e cinzas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Será que eu desaprendi a contar???????

As declarações dos senadores ou de suas assessorias sobre a natureza de seus votos na sessão de ontem deixaram claro que as sessão com votação secreta não podem continuar. O senador foi absolvido ontem por 40 votos a 35, e houveram 6 abstenções, mas em suas declarações hoje, 46 senadores afirmaram terem votado pela cassação...
É óbvio que a votação secreta protegeu aqueles que queriam proteger Renan... mas que não têm coragem de declarar a público que o fizeram. E fica a dúvida, quem estará mentindo?
Os Democratas, em reunião hoje, preparam a proposta de que todas as votações de cassação de mandato passem a ser abertas, e esperam conseguir votá-la , em regime de emergência, daqui a cerca de duas semanas. Que eles consigam.

Vomitar essa pizza sobre a cidade. E eles que aguentem o cheiro.

Doze de setembro de 2007 ficará marcado na história brasileira pela impunidade, mas os dias que se seguem podem ser marcados pela reação popular. Renan Calheiros foi absolvido, mas ainda correm dois processos sobre outras malandragens de nosso honrado senador , e para que por essas ele seja punido, não podemos ficar passivos agora frente à pizza que nos enfiam guela abaixo. Nosso descontentamento e indiganação com a vergonhosa sessão tem que chegar até os ouvidos dos senadores que decidem por nós, a ponto de eles não poderem mais ignorar-nos e decidirem pela cassação de Renan nas próximas sessões. E temos de aprender com episódios como esse a pensar bem antes de votar, para não mais colocar no poder políticos como aqueles que absolveram Renan.
Vamos fazer nossa voz ser ouvida!
Não podemos mais nos enquadrar na imagem de povo alienado, burro e omisso, que conformado janta pizza diariamente e mal sabe que pizza é essa.

*obs.: o título é inspirado num verso de A Flor e a Náusea, de Drummond ("... vomitar esse tédio sobre a cidade")

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Habemos Pizza !

Pois sim, preparem os pratos, que hoje na casa de cada brasileiro chegará completamente de graça uma pizza diretamente de Brasília. Renan Calheiros foi absolvido em votação no plenário por 40 votos a 35. Houveram 6 abstenções. Depois de muita palhaçada, com direito a pancadaria entre deputados e seguranças e uma deputada ferida, a sessão começou, e de última hora foi aceita a presença de parlamentares. Protegidos pelo voto secreto, resquícios de legislação da época da ditadura, os deputados não se importaram em honrar os interesses do povo que representam.
Renan foi absolvido. A impunidade está a dar risadas na nossa cara. Disse Chico Alencar, líder do PSOL na câmara esta manhã:"... o 12 de setembro, no Brasil, simbolicamente, pode representar um atentado terrorista e um golpe à nossa aspiração de construir minimamente uma democracia no país”. Pois é, parece que suas previsões estavam corretas.
Renan Calheiros ainda reponde duas denúncias: a de fazer negócios não muito corretos com a Schincariol e a de teruma rádio e um jornal em nome de laranjas em Alagoas. Ainda não pode respirar aliviado. Mas se ele já venceu a primeira, quem nos garante que justiça será feita nas próximas?
Parabéns esfomeados brasileiros, contentem-se! A noite é de pizza gratuita!