domingo, 4 de outubro de 2009

Festejar de olhos abertos

Ninguém ignora os gravíssimos problemas brasileiros. Fome, saúde, educação, violência, incomparável desigualdade social. Nem por isso receber no país um evento esportivo mundial caracteriza-se obrigatoriamente como ação hipócrita ou como certeza de desastres pela frente. Nem só de circo se faz uma olimpíada.

Alguém poderia com certeza afirmar que os bilhões a serem investidos nos jogos de 2016, se estes não ocorressem, seriam gastos para sanar as deficiências brasileiras? É importante lembrar das deficiências, mas não deve esquecer-se que os Jogos Olímpicos trazem também desenvolvimento, geração de empregos, e pode deixar à cidade que os acolhe bons legados.

A população pode e deve festejar, mas nos próximos sete anos deve ainda mais é ter os olhos bem abertos para fiscalizar os preparativos. Há de haver pressão pela transparência nos investimentos e nas licitações, pressão pela boa organização, pressão para que as melhorias realizadas para os jogos possam ser posteriormente desfrutadas pelo povo. E aí sim, teremos
mais motivos para festejar.

Os problemas que datam de séculos claramente não serão resolvidos em sete anos, mas nesse meio tempo as atenções mundiais voltadas ao Rio de Janeiro podem servir de incentivo para que mais seja feito.

E, claro, sediar uma Olimpíada eleva a auto-estima de toda uma nação. E por quê não se orgulhar daquilo que de bom temos? Festeja, carioca. Festeja, Brasil, que é doce a vitória. Mas não esquece de manter os olhos bem abertos nos próximos anos, para que a festa não acabe amarga.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Curso gratuito de redação e gramática da USP com inscrições prorrogadas

O Projeto Redigir, curso gratuito de redação e gramática para a cidadania, ministrado por alunos da Escola de Comunicação e Artes, prorrogou o período de inscrições para as turmas do segundo semestre até o próximo sábado (8/8).

Pode se inscrever qualquer pessoa com mais de 16 anos, com o ensino fundamental completo em escola pública. As aulas são semanais, com opção de turmas em dias de semana, de manhã ou à noite, e turmas aos sábados de manhã.

Para se inscrever o candidato deve se apresentar pessoalmente nos plantões de inscrição portando os seguintes documentos: cópia do RG, cópia do comprovante de histórico escolar ou diploma e cópia dos comprovantes de renda de todos da família. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone, e-mail ou pela página www.evon.com.br/wikis/redigir.

ECA-USP
Local: av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária (prédio de Jornalismo e Editoração)
Fone: (11) 3037-0618
E-mail: projetoredigir@gmail.com
Horários de inscrição: de segunda a sexta, das 10h às 14h e das 17h às 21h. Sábados das 9h às 13h.
Data: até 8/8

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Viagem a um mundo de encantos

A exposição“Era uma Vez... Arte Conta Histórias do Mundo”, em cartaz no CCBB, traz as fadas, princesas e príncipes para fascinar crianças e adultos.

Matéria da revista Espaço Aberto, 7 de maio de 2009.
Por Mariana Franco.



Num grande prédio de São Paulo morava a menina, sempre cheia de livros nas mãos. Alguns andares abaixo, a tia-avó. E lá passava grande tempo a menina, escutando a tia-avó desfiar lindíssimos contos de príncipes e princesas e viajando para lugares distantes, nas lonjuras dos tempos do era uma vez.

A menina cresceu, estudou, viajou o mundo, especializou-se e agora faz a curadoria da exposição “Era uma Vez... Arte Conta Histórias do Mundo”, em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil. A mostra reúne trabalhos de diversos artistas, entre ilustrações, fotografias e instalações; inspirados principalmente nos contos de Charles Perrault, Hans Christian Andersen e dos Irmãos Grimm.

Katia Canton, a “menina-crescida”, curadora da mostra, é especialista em contos de fadas (e apaixonada por eles), professora e curadora de arte do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) e escritora de livros infanto-juvenis.

“Quando tive de escolher um tema para minha pesquisa de doutorado, na New York University, toda aquela bagagem dos contos de fadas da minha infância voltou à memória e foi essa temática que segui. Agora, convidada a fazer uma exposição aqui no CCBB perguntei-me como juntar arte e contos de fada novamente? O resultado é este”, conta ela.

A exposição ocupa todo o prédio do Centro Cultural, entre salas e corredores dos três andares, o hall de entrada do térreo e os corredores e cofres do subsolo. No processo de montagem, os contos de fadas iam surgindo em imagens pelas paredes, como se essas fossem as páginas em branco sobre as quais autores e desenhistas fizeram suas histórias.

Como num sonho de meninas, encontramos no terceiro andar uma sala completamente cor-de-rosa, inspirada no Museu do Louvre. O visitante tem, sobre sua cabeça, um painel com a reprodução dos afrescos do teto de uma das salas do museu, sob os quais Charles Perrault contava suas histórias. Ao lado do painel pende, até o chão, um lustre de delicados e divertidos cristais cor-de-rosa, obra da artista plástica Alzira Fragoso. “O lustre tem teias de aranha que se remetem às recordações. O nome da instalação é Quero Te Achar, porque a intenção é que cada um encontre dentro de si aquela menina que se encanta com as princesas e com a cor” diz a artista.

Engana-se, porém, quem pensa que contos de fadas são coisas só de meninas. Muitas das histórias que se contam às crianças têm versões originais tristes e complexas, que são também fontes para a compreensão da cultura de sua época. “Contos de fadas não são textos atemporais e neutros. Cada história, em sua versão, agrega em si valores particulares, ligados à história e ao contexto do autor que a escreveu”, explica Katia.

A mostra conta com diversas obras que se reportam às histórias originais para adultos. Numa sequência de fotos da artista plástica Elisa de Magalhães, vemos uma Chapeuzinho-Vermelho-Mulher, despindo-se de um rubro véu. Na simbologia original da história, o véu vermelho é a primeira menstruação da menina, a fugir do homem que passa a persegui-la: o Lobo.

O subsolo do prédio é dedicado a contos dos quatro cantos do mundo. As ilustrações são inspiradas na tradição oral africana, árabe, japonesa, italiana e russa. Enquanto aprecia as ilustrações, o visitante pode escutar em fones de ouvido diversas histórias narradas por atrizes e cantores convidados.

Dentro da programação estão também contadores de histórias. No dia 30 de maio, às 16h, Kiara Terra apresenta ao público o clássico A Bela Adormecida no Bosque. Já no dia 20 de junho, também às 16h, Giba Pedrosa apresenta Chocolate Quente na Neve e Um Conto de Grimm.

Tanto para os pequenos quanto para os crescidos, andar pelas salas e corredores da exposição é mergulhar num mundo fantástico, no qual os sorrisos a todo momento se abrem e os olhos não sabem para onde primeiro correr, brilhantes com tanto encanto.

Você pode viajar para esse mundo fantástico até o dia 21 de junho, de terça a domingo, das 10h às 20h, e nem é preciso pagar em moedas de ouro ou em vermelhas maçãs. A entrada é gratuita!

Devolução de medicamentos gera segurança e economia

Programa do HC alerta para os riscos de se manter uma farmacinha em casa.

Matéria da revista Espaço Aberto, 7 de maio de 2009.
Por Mariana Franco.

Onde ficam os remédios na sua casa? Provavelmente numa caixinha, no armário do banheiro ou da cozinha, locais de grande calor e umidade, pouco adequados para a conservação dos produtos.
Esse hábito de manter uma farmacinha em casa é uma das principais causas de intoxicação por medicamentos. Dados de 2006 da Fundação Oswaldo Cruz registraram 39.514 intoxicações no estado de São Paulo, das quais cerca de 40% foram causadas por medicamentos. Crianças de até quatro anos de idade, em geral, são as mais atingidas.

Esse é um dos motivos que levaram a Farmácia Ambulatorial do Instituto Central do Hospital das Clínicas (ICHC) a instalar um programa que incentiva os pacientes a devolver os medicamentos que, por algum motivo, deixaram de ser consumidos durante o tratamento.
Carlos Suslik, médico e diretor executivo do ICHC, explicou que todos os pacientes atendidos no ambulatório recebem gratuitamente os remédios necessários ao tratamento, retirando-os na farmácia com data e hora marcada ou recebendo-os diretamente em casa. Como diversas vezes esses medicamentos não são consumidos na sua totalidade, eles passam a ser um problema, tanto pelo risco de automedicação, quanto pelo de ocorrer um descarte inadequado, que ocasiona problemas ambientais.

Os medicamentos que são agora devolvidos ao HC passam por uma avaliação de suas características. Aqueles que ainda estão em boas condições são encaminhados para outros pacientes. Os demais são descartados devidamente, recolhidos por empresa especializada e encaminhados para incineração.

Em quatro meses, 957 pessoas aderiram ao programa e 14.030 unidades de diversos tipos de medicamentos foram devolvidas. Somente são recebidas as devoluções dos pacientes do próprio HC. “Quem é atendido aqui tem uma numeração, com a qual podemos rastrear o medicamento devolvido e controlá-lo. Também não teríamos estrutura para atender mais pessoas”, explicou Suslik. Passam em média 3 mil pacientes pela farmácia do ICHC para retirar seus remédios por dia.

Além de segurança, o programa gera economia: desde sua implantação, R$ 120 mil foram poupados, dinheiro que retorna em melhorias para o hospital. Entretanto, o ponto central, como ressalta o diretor, “não é a economia, mas segurança dos pacientes”.

Para Maria Cristina De Nadae, diretora da Farmácia Ambulatorial, o ideal seria comprar em qualquer drogaria medicamentos fracionados. Já que isso não ocorre, “deveria ser como bateria de celular, quem forneceu ter a responsabilidade de recolher e dar o descarte adequado”.
Cristina acredita que agora, com a divulgação do programa, todos vão começar a se perguntar: “E os remédios lá de casa?”, e que dessa forma a questão da devolução de medicamentos deverá em breve ser discutida no Conselho Regional de Farmácias, visando à implantação do programa em mais locais.

Emiliane Silva Santiago, estudante da pós-graduação em farmácia da USP, foi ao HC devolver os medicamentos de um vizinho, que os recebe em casa para o tratamento da diabetes, mas não os consome. Ele chegava inclusive a distribuir os remédios para amigos e conhecidos. Emiliane estava já há meses tentando devolvê-los em algum lugar. “Fui a várias UBSs (Unidades Básicas de Saúde), mas nenhuma aceitou.” Para ela, é muito importante a divulgação do programa e a conscientização das pessoas de que guardar uma farmacinha em casa é muito perigoso. “Toda unidade de saúde deveria receber devolução de medicamentos.”

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sobre Violência Sexual

"Não é o toque, nem a violência física e nem a falta de consentimento que vão definir o abuso sexual, mas sim a sexualidade vinculada ao desrespeito ao indivíduo e seus limites, a troca de sua postura de sujeito a uma de objeto dos desejos do outro."
(CEARAS - FMUSP)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Como Queremos o Centenário da Semana Euclidiana?

Ano após ano diminui o número de maratonistas e o tamanho dos eventos. Estará a Maratona Euclidiana fadada ao gradual declínio e término?

O Seminário de abertura da 96ª Semana Euclidiana, ocorrido no sábado, dia 9 de agosto, foi a mais curta cerimônia de abertura de que se tem notícia. Marcada para começar às 10 horas, contabilizando-se um pequeno atraso, execução do hino nacional, as devidas apresentações, homenagens e palestras; às 11:15h já tinha acabado.
Os palestrantes Lando Lofrano e Maria Olívia de Arruda disseram ter preparado seminários de cerca de uma hora cada, porém, preferiram deixar de lado o material para fazer uma exposição mais curta e superficial dos assuntos. O motivo? A faixa etária da platéia. Acostumados a palestrar para uma maioria de estudantes do ensino médio, os professores depararam-se com um auditório cheio majoritariamente de crianças, desde os nove anos de idade.
O Ciclo de Estudos Euclidianos era tradicionalmente direcionado para alunos de 7ª e 8ª séries (Área I ), ensino médio (Área II ), e alunos de ensino superior ou professores (Área III ). Numa iniciativa de familiarizar as crianças rio-pardenses mais cedo com a obra euclidiana, foram acrescentadas no ano passado a Área I-A (5ª e 6ª séries); e nesse ano a Área Inicial (3ª e 4ª séries). Apesar de ser uma temática pesada, há maneiras de iniciar os pequenos no euclidianismo com sucesso; e é sem dúvida necessário ensinar às nossas crianças essa parte tão importante da história da cidade e do país.
O problema, entretanto, é que enquanto as áreas inicial e I incham de pequenos maratonistas, o número de alunos nas áreas II e III declina sensivelmente. Para quem acompanhou a Semana, os Ciclos de Estudos e os alojamentos durante os últimos anos, é muito claro como ano após ano o número de maratonistas diminuiu. Para quem estava acostumado a ver a cidade cheia de alunos nessa época do ano, chega a ser deprimente ver o reduzido número de maratonistas que agora estão aqui alojados.
Todos os anos, orgulhosamente, proclamamos que São José do Rio Pardo é a Meca do Euclidianismo, referência em todo o Brasil quanto a esse assunto; e que a Semana Euclidiana é o evento cultural mais antigo do país. A verdade, porém, é que fora daqui a Semana é praticamente desconhecida: são poucas as cidades e escolas que mantém contato com a Casa Euclidiana, usualmente só aquelas que têm vínculo com algum professor do Ciclo de Estudos. As universidades estaduais e federais do estado e seus professores ignoram completamente a Semana, e muitos até mesmo o fato de Euclides ter morado e escrito grande parte de Os Sertões aqui. Muitos dos maratonistas de fora têm de vir sem apoio algum para cá, empenhando-se inclusive em provar que a Semana Euclidiana existe para conseguirem uma autorização da direção de suas escolas. A participação em um movimento tão grande e enriquecedor, intelectual e culturalmente, não é incentivada por falta de conhecimento e divulgação. É como se todo ano organizássemos uma grande festa mas não convidássemos ninguém para ela.
O ensino para as crianças é importante, mas deveria ser dado mais ênfase nas áreas II e III, inclusive com projetos de produção intelectual, pois é aí que se concretizarão os estudos e daí que sairão os próximos projetos e professores para renovar e dar continuidade ao ciclo de estudos.
É preciso que a Casa Euclidiana, os alunos e professores divulguem esse movimento em locais de interesse: escolas de ensino médio, cursos de história, geografia, ciências sociais, jornalismo, pedagogia e outros dos campus das nossas universidades públicas. A vinda desses alunos seria um grande enriquecimento para o Ciclo!
Se a Semana continuar sem divulgação eficiente, com olhar fechado apenas na própria cidade de São José, seguirá encolhendo: um acontecimento de grande fama, grande história, mas pouco conhecimento e repercussão. E no centenário, daqui a 4 anos, terá ainda forças para continuar?
Se as devidas providências começarem a ser tomadas agora, poderemos presenciar um grande centenário da Semana Euclidiana, ainda com potencial de se renovar e seguir por anos. Se nos acomodarmos, entretanto, o centenário marcará também o triste e decadente final da mais antiga Semana Cultural do país.

Ah, sim! Para aqueles que nunca ouviram falar da Semana Euclidiana: Casa Euclidiana

sábado, 21 de junho de 2008

Filosofia com muita imaginação

texto conjunto de Eduardo Graziani, Fabrício Lobel, Felipe Fontes, Felipe Lobo e Mariana Franco - de longe o trabalho escrito mais legal de ser feito até agora:
Numa das mesinhas da casa de chá da EFTSC (English Fairy Tales and Stories Center) estavam reunidos a Rainha de Copas, Peter Pan, Robin Hood e Hermione Granger, desfrutando o típico chá das cinco. Quando a porta abriu, deixando entrar uma rajada de vento e a luz do sol, todos, exceto a Rainha, se voltaram para olhar quem chegava.

_ Vejam se não é nosso colega francês, o Pequeno Príncipe!_ exclamou Robin Hood
- O Pequeno príncipe?!- perguntou Hermione com leve assombro.- li sobre sua história, é linda!- a cada palavra crescia a exaltação por conhecer o estrangeiro.
Peter Pan imediatamente subiu em sua cadeira e acenou para o recém chegado:
_Ei, parceiro, vem sentar aqui!
Só quando o recém-chegado sentou-se à mesa com os outros que a Rainha de Copas ergueu os olhos de sua xícara para examiná-lo:
-Oh! Que insolente! É contra a etiqueta bocejar na frente de uma rainha!
_Não consigo me controlar. Eu fiz uma viagem muito longa e não dormi.
_Você está chegando direto da França?_ indagou Hermione com sua empolgaçao a um nível que parecia irritar a Rainha.
_Sim. Vim pelo sistemas de intercâmbio dos Central de Contos de Fadas e Histórias.
_Ahhh, é verdade_ animou-se Peter Pan _ o capitão Gancho tinha mesmo me contado dessa nova política da Central... parece que eles conseguiram mandar o Chapeleiro maluco, nesses intercâmbios lá pra França. Pelo menos ele deu uma trégua pra gente... Parece que ele tá aprontando o diabo lá na Central de Paris! Da última vez que soube dele, tiveram que arrancá-lo de um Café.
-A Central está cada vez pior... Acreditam que eles quase mandaram o Chapeleiro, meu súdito, sem me consultar? Ainda bem que eu fiquei sabendo e autorizei a viagem. Mas podem deixar que já marquei as execuções dos responsáveis!
O Pequeno Príncipe foi-se servindo de chá. A Rainha solicitou a Peter Pan que a servisse de chá também. Ele, que não gostava de ordens, tratou de, disfarçadamente, pegar um vidrinho de poção que estava à mostra no bolso de Hermione e derramar algumas gotas na xícara da Rainha.
_ Ah, este chá está horrível!- disse a Rainha logo depois de ganhar um tom de pele levemente verde- Onde é que está a "qualidade em primeiro lugar" da Central Inglesa?
_ É realmente um problema, nisso posso concordar com você. Eles estão sempre cortando custos, e começam realmente pelo chá dos trabalhadores. Sempre assim, tirando dos que menos têm. _ retrucou Robin Hood.
- Oh, mais uma palavra desse discurso subversivo e perderá a cabeça!
-Deixe de ser convencida, Rainha_ disse Hermione_ Você só tem poder dentro da história da Alice. Aqui somos todos iguais, trabalhadores.
-Ah, mas ela não percebe isso, Hermione_ continuou Hood_ para ela somos todos súditos, simplesmente. E porque existem mais como ela é que há tantos passando fome! Minha terra, Sherwood, é o maior exemplo disso.
-Não seja tolo, senhor Hood. Sua terra só é um desastre como diz porque seu Rei é um fraco, que não sabe tomar as rédeas do poder, e além de tudo, existem os bandoleiros promotores de confusão como você. O senhor na verdade não passa de um ladrão. Se morasse em meu reino eu não permitiria isso, e me usaria sabiamente da força.
-Força? Se o governante usa a força o controle se dá pela violência, o que só piora a situação. Você é sim uma tirana maluca, que acha que tem poder sobre tudo só porque é rainha. As pessoas precisam é de liberdade, e simplesmente saber até que ponto podem exercer a sua liberdade sem ferir a liberdade do próximo. Abaixo os reis e os governos!
-Cale-se, seu plebeu insolente! Como ousa proferir tamanhas atrocidades frente a alguém de sangue nobre? A liberdade que você defende é bagunça, isso sim. Plebeus como você não têm direito de decidir sobre nada. Eu, que tenho sangue nobre é que posso decidir sobre tudo. Por meu sangue tenho o direito de reinar!
Nesse momento, o Pequeno Príncipe entrou na conversa:
-Com licença, senhora, sobre quem a senhora reina?
-Sobre tudo. Toda e qualquer coisa que possa ser vista em meu reino.
-Sobre tudo isso? Sobre as estrelas também?
-Sim, eu disse tudo, não?
-E as estrelas obedecem à senhora?
-Claro. Elas obedecem prontamente. Eu não admito indisciplina!
-Sabe, eu já conheci um rei uma vez. E ele também reinava sobre tudo, inclusive as estrelas.
-Não é possível! EU reino sobre tudo! EU sou a rainha! EU! EU! EU!
-Iria ser complicado se vocês dois se conhecessem, não iria? Acho que essa coisa de só um mandar e o resto obedecer é bem estranha, até para os adultos. E se você se enganar?
-Há! Eu nunca me engano. Eu sei de tudo que acontece no meu reino!
-A senhora não sabia que o chapeleiro maluco ia viajar, sabia? Não sabia que existia um outro rei que mandava em tudo, sabia? E aposto que a senhora não sabe que o Robin Hood acabou de roubar seus anéis.
A Rainha de Copas Abriu a boca para falar e a fechou algumas vezes, enquanto a mesa toda ria da conversa que acabaram de ter. Foi nessa que o Robin hood se levantou e bradou:
- Pois é isso mesmo! Viva a liberdade! Viva a anarquia!
O pequeno príncipe, curioso: -Anarquia? Senhor Hood, você poderia me explicar quem é essa tal de senhora anarquia?
- Anarquia não é uma mulher, pequeno. É uma forma de governo. Na verdade, uma forma de não-governo. É a liberdade total, onde todos podem fazer o que quiser, sem ninguém mandar você parar!
-Mas isso não seria complicado? E se tiver alguém que queira cortar todas as rosas do mundo? Não seria triste um mundo sem rosas?
-Bem, err...há sempre algumas camélias pra se enfeitar- disse Hood com uma voz sem a emoçao de antes.
-Mesmo não concordando com a rainha, não apóio você. Acho que as pessoas não podem ser controladas por tiranas loucas que nem essa daí, mas também não podem ser livres pra fazer o que quiser, como você diz.
-E qual é a sua solução, então?!- bradaram a Rainha de Copas e Robin Hood, já indignados com a visita do estranho.
-Acho que se a gente reunisse várias pessoas muito muito inteligentes, e pedissem pra elas governarem, seria bonito. Elas seriam justas, pois seriam sábias. E elas plantariam milhões de rosas e fariam o sol se pôr atrás delas. Ah Hood, suas camélias tambem teriam o seu lugar. Deve ser lindo.
Todos ficaram calados por algum tempo, com o olhar perdido, como se avistassem todas aquelas rosas e pôres do sol. Pan foi o primeiro que voltou à casa de chá:
- Poxa, Pequeno Príncipe, seria lindo mesmo! Tão lindo quanto as lutas de espada com o Gancho e as sereias cantando lá na Terra do Nunca. Realmente, acho que a beleza é essencial.- Falando isso jogou pra trás os cabelos que lhe caíam no rosto e olhou fixamente para Hermione.- vocês não acham?
Hermione piscou algumas vezes e olhou com ar de desprezo para o menino, que se adimirava usando uma colher de chá como espelho.
- Você estaria falando sobre as rosas ou sobre você mesmo, Pan? Pois eu acho que existem coisas muito mais importantes que a beleza, como a sabedoria. Sabe, toda beleza passa. Até mesmo as rosas mais belas murcham. Só você, que tem é medo de crescer, não vê isso. Você pode nunca perder sua beleza, mas também nunca vai amadurecer nem adiquirir sabedoria.
O Pequeno Príncipe bateu amistosamente no ombro de Pan.
-Calma, Peter. As crianças devem ser muito pacientes com as pessoas grandes.
Pan soltou com isso uma bela gargalhada, e o Pequeno Príncipe sorriu também, pelo contentamento do outro.
-Podem rir a vontade. Não ligo. Eu vou é ser sábia. Sou uma pessoa séria!
-Uma pessoa séria? -perguntou o Pequeno Príncipe- Sabe, eu conheci uma vez um planeta onde existe um homem que nunca cheirou uma flor, nunca olhou uma estrela, nunca fez outra coisa que não fosse contas de somar. E todo dia ele repete, como você: "Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!" e isso o deixa orgulhoso. Mas isso não é um homem, é um vegetal! Aliás, o que seria do mundo se as pessoas só fossem sábias, mas não percebessem nunca a beleza das coisas? Pra que serviria ser tão sábio então?
Hermione, silenciada, baixou a cabeça, refletindo sobre o assunto.-Tá vendo, Hermione?- riu Pan - Eu disse que a beleza era essencial não disse? E eu acho que o amor também só existe por causa dela, você não acha Pequeno Príncipe?
-Hmmmm. Peter, você gosta bastante dos Meninos Perdidos, não gosta?
-Os Meninos! Claro que gosto, eu sou como o pai deles. Ensinei pra eles a lutar com espada e tudo mais que eles sabem agora! Eles são muito importantes pra mim!
-E... eles são bonitos?
Pan soltou uma gargalhada: -Bonitos? São é uns nojentos, sempre com caca escorrendo do nariz!
-Mas se eles não são bonitos, como você gosta deles?
O menino se atrapalhou um pouco pra responder, tropeçando nas palavras:
-Bom, eles... ahn... eles estão lá na Terra do Nunca comigo faz bastante tempo. E... eu passei um tempão ensinando eles a lutar, e.... bom, moramos juntos, oras!
-Então a beleza não deve ser tão essencial assim pra gente gostar das pessoas, você não acha? Na verdade, eu acho que o essencial é invisível aos olhos. Você gosta dos Meninos porque passou muito tempo com eles. Eles o cativaram. E... sabe, lá no meu planeta eu tinha uma rosa, e ela se tornou importante pra mim porque todo noite eu colocava um redoma sobre ela, e todo dia tirava de perto dela as ervas daninhas que nasciam. Aposto que também foi assim quando você ensinou os meninos a lutar, não foi? É o tempo que a gente gasta com as pessoas que as tornam importantes pra gente.
Mais uma vez, a mesa silenciou e se encheu de olhares perdidos em mundos distintos. O Pequeno Príncipe de repente se lembrou que não tinha alimentado seu carneiro antes de sair. Sem dizer palavra, levantou-se e foi andando com seus passinhos miúdos para o hotel.
Alguns minutos depois, quando todos voltaram a falar e beber chá, Robin Hood comentou:
-Engraçado, esse chá parece bem mais doce agora, não?