sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Múltiplas possibilidades

Os Centros de Produção Digital, a partir de uma estrutura básica, oferecem possibilidades múltiplas de utilização

Matéria da Revista Espaço Aberto, dezembro de 2009
Por Mariana Franco


Os Centros de Produção Digital (CPDigis) surgiram da necessidade de se levar uma estrutura semelhante à do Estúdio Multimeios, do Centro de Computação Eletrônica (CCE), de forma mais simples e acessível às unidades, para que esses recursos pudessem atender a mais pessoas e projetos da Universidade. “Ao invés de o Multimeios ser grande e os docentes interessados terem de ir até ele, muitas vezes não se adaptando bem à estrutura fixa do estúdio, faz-se o contrário: levam-se estúdios pequenos até as unidades, adaptados às necessidades específicas de cada uma delas”, explica Gustavo Faria, responsável pela infraestrutura da CTI.

O projeto, da Coordenadoria de Tecnologia da Informação (CTI) e da Pró-Reitoria de Graduação, aponta para uma evolução do ensino, aliado à tecnologia. Já estão funcionando os centros da Faculdade de Saúde Pública (FSP), do Instituto de Física (IF), do Centro de Informática de São Carlos (Cisc), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), do Centro de Informática de Ribeirão Preto (Cirp) e da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp). Ao todo, serão vinte unidades da capital e interior que receberão a estrutura em suas instalações até 2010.

O Estúdio Multimeios conta com recursos adequados para gravação de aulas, palestras e experiências, além de recursos para edição e produção de vídeos e áudios pedagógicos. Os CPDigis contam com uma estrutura básica semelhante, composta de sala de videoconferência, estúdio de gravação, sala de aula inteligente e sala de controles, toda pensada para ser operada por apenas um ou dois técnicos. Cada unidade, porém, apresenta adaptações próprias ao projeto, por conta de suas demandas específicas. O tamanho dos estúdios e salas de aula, por exemplo, é variável.

As possibilidades que se abrem a partir desses recursos são variadas. “As aulas podem ser ministradas via videoconferência, gravadas e exibidas posteriormente, em outras aulas ou disponibilizadas na internet. Turmas de diferentes cidades podem assistir à mesma aula simultaneamente, interagindo com o professor da mesma maneira. Experiências diversas, montadas em diferentes laboratórios, podem ser transmitidas ao vivo, ao contrário do que seria possível numa aula presencial”, elenca Faria.

Em 23 de novembro foram inaugurados, simultaneamente e por videoconferência, os CPDigis do Cirp e da Forp. Nesta, a ferramenta será fundamental para o desenvolvimento da Teleodontologia, pois possibilitará o crescimento do Polo de Odontologia Digital Aplicado à Educação (Podae). “Com isso, vai aumentar ainda mais a sofisticação e a qualidade do material didático produzido para apoio ao ensino presencial e a distância”, segundo a diretoria da unidade.

Daniel Marucci, da área de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) da Faculdade de Saúde Pública, onde, em 17 de setembro, foi inaugurado um centro, lembra que a faculdade tem tradição em ensino a distância, com cursos em postos avançados fora do campus, que serão certamente beneficiados com a inovação.

“O posto avançado de Araraquara já tem estrutura de videoconferência e poderá em breve se interligar com o serviço. As videoconferências aqui têm sido constantes também. Recentemente, por exemplo, um grupo de epidemiologistas da faculdade esteve em conferência com um grupo de Lyon”, explica.

Entre a USP e a França

“Marca muito o imaginário de uma menina comemorar seus 10 anos em Paris!”

Matéria da Revista Espaço Aberto, outubro de 2009
Por Mariana Franco

Lisbeth Rebollo, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e atual diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC), recebeu, em 21/8, do Ministério da Cultura e Comunicação da França, a nomeação de Cavalheiro das Artes e Letras, em reconhecimento às atividades de divulgação da cultura francesa realizadas no MAC sob sua diretoria, durante o Ano da França no Brasil. Sua relação com o país europeu, entretanto, começou muito antes, ainda na infância.

Lisbeth nasceu na década de 40, em São Paulo, filha de Francisco Rebolo e Lisbeth Krombholz Gonsales. Devido à ocupação do pai, pintor, cresceu entre artistas, num meio bastante ativo do panorama cultural da época. Rebolo fora o fundador do Grupo Santa Helena, associação de artistas, em sua maioria descendentes de imigrantes, que se encontravam no Palacete Santa Helena, importante para a consolidação da arte moderna e o movimento pró-criação do Museu de Arte Moderna (MAM).

“A Primeira Bienal de São Paulo visitei nos ombros do meu pai. Lembro-me de passar no meio de muita gente, vendo algumas obras de arte” recorda sobre o evento ocorrido em 1951, do qual o pai foi um dos representantes e expositores.

Ela e os pais foram os segundos moradores do bairro do Morumbi, habitando uma chácara arrendada. “Nenhum privilégio”, lembra ela, já que “o bairro era só mato e terra”. Na chácara da família hospedaram-se alguns amigos do pai, artistas franceses que passavam por momentos difíceis com a recessão do pós-guerra em seu país. Menina, já apreciava o som da língua.

Entre os anos de 1955 e 1956, graças a um prêmio ganho pelo pai, toda a família passa um ano e meio viajando por diversos países da Europa. Assim, ainda criança, teve o privilégio de conhecer toda a França e parte da Europa. “Foi o primeiro contato direto que tive com a Europa e com a França. Meus 10 anos, comemorei-os em Paris. A festinha foi no hotel em que estávamos hospedados, um hotel pequeno. Estavam lá também o (Mário) Zanini, pintor e decorador brasileiro, e sua mulher. O país ainda se reerguia da guerra, mas era tudo muito impactante. É um fato que marca muito o imaginário de uma menina passar seus 10 anos em Paris!”

Durante a estada na Europa, estudou com professores particulares o necessário para retomar o ginásio (atual ensino fundamental) quando retornasse ao Brasil. “A disciplina obrigatória, porém, era História da Arte”, conta. O pai fazia questão de que ela visitasse museus e monumentos históricos. “Lembro-me de ficar muito impressionada ao entrar na área de exposição da fase negra de Goya, no Museu do Prado, na Espanha. Visitei o Louvre e o túmulo de Napoleão. Imagine o impacto, quando se é pequena, de ver o lugar onde Napoleão estava enterrado!”

Durante a viagem, visitaram o pintor e amigo da família Robert Tatin, que passara uma temporada hospedado na chácara do Morumbi. Para encontrar o amigo, foram à Bretanha (região da França). “Lá as mulheres ainda usavam roupas típicas, com chapeuzinhos altos, de renda branca. Havia também muitos campos de macieiras. As maçãs caíam das árvores e rolavam pela estrada, onde as pegávamos” recorda-se. “Também o sul da França, a Costa Azul, era tudo muito impressionante!”

Lisbeth entrou na USP em 1967, de onde não mais saiu. Graduou-se em bacharelado e licenciatura no curso de Ciências Sociais. Seu mestrado e doutorado desenvolveu na área de Sociologia da Arte. Em 1983 passou a trabalhar no MAC e, posteriormente, em 1987, ingressou na carreira docente, na Escola de Comunicações e Artes (ECA).

A professora retornou à França, entre os anos de 1996 a 2000, passando por lá pequenos períodos para desenvolvimento de sua pesquisa, em cooperação Inter-Universitária, sobre a comunicação desenvolvida no espaço de exposições de arte contemporânea, que originou sua livre-docência. “Voltar ao país com preocupações profissionais, para estudar, ver e aprender com uma cultura tão rica, foi como reatar uma ligação com aquele espaço, que me fora importante na primeira infância” pondera.

A condecoração do Ministério da Cultura da França vem graças a exposições, seminários e palestras com especialistas franceses convidados que ocorreram no MAC. Pelo Ano da França no Brasil, quatro exposições foram montadas: “A França no MAC”, “Arte Frágil”, “Renault, uma aventura moderna” e “O Mundo sem medida”.

“Fico muito feliz com o reconhecimento ao trabalho. Este prêmio não é só meu, mas da USP também, pois reconhece a importância da Universidade com a abertura de espaços em seus museus para essas relações internacionais” finaliza.

Uma vida da academia e das artes


“Nem sei me imaginar fora da USP.”

Matéria da Revista Espaço Aberto, outubro de 2009
Por Mariana Franco

Desde pequena, Lisbeth Rebollo tinha um gosto espacial pela pesquisa. Mexia nos arquivos do pai, lia documentos e jornais de época, organizava-os. Já naquele tempo gostava de lidar com a informação ainda não sistematizada. Ela cresceu num meio privilegiado, tendo desde cedo contato com o mundo artístico. Quando chegou a hora de se decidir por uma graduação, queria a área de humanas, mas não tinha certeza quanto ao curso. Na época ainda não existiam os cursos da Escola de Comunicações e Artes.

Em dúvida entre Letras, Filosofia ou Ciências sociais, recebeu orientação de seu pai para que fosse conversar com Sérgio Milliet, crítico de arte, grande humanista e amigo da família. Lisbeth seguiu as palavras que ele então proferiu: “Se você tem dúvida, faça Ciências Sociais, porque assim terá uma formação bastante ampla no campo humanístico e em seguida poderá se direcionar para o campo com o qual tem maior afinidade”.

Assim, ingressou na USP em 1967, onde graduou-se bacharel e licenciada em Ciências Sociais. Chegando ao mestrado, apresentou a seu professor dois projetos, um sobre arte e outro sobre antropologia. O orientador não teve dúvidas: “Nem vou ler o outro para não ficar com remorso”. Faltavam, na época, pesquisas no campo da arte, e foi para o estudo da Sociologia em artes visuais que ela se direcionou.

Trabalhou, em seu mestrado, sobre a contribuição do pintor Aldo Bonadei para a arte brasileira. Graças à sua ligação com o grupo Santa Helena, Lisbeth conseguiu com a família do pintor, então recentemente falecido, toda uma documentação inédita, sobre a qual pode se debruçar.

Lidando com pintura, descobriu muito material sobre crítica de arte. Tendo desde pequena proximidade com o crítico Sérgio Milliet, quis conhecer melhor seu trabalho. Seu doutorado desenvolveu-se então sobre crítica de arte e em torno de Milliet.

Em 1983 passa a trabalhar no MAC, onde dirige a Divisão Científica, lidando com acervo e pesquisa. Não havia então carreira docente nos museus. Desejosa de dar continuidade à carreira e aos estudos, ingressa em 1987 na carreira docente, na Escola de Comunicações e Artes. Dentro da ECA, no Departamento de Comunicações e Artes, desenvolveu diversas disciplinas e linhas de pesquisa, sempre ligadas à crítica de arte e arte contemporânea. Em 1994 foi nomeada para a diretoria do MAC, função que desempenhou até 1998.

Na sua livre-docência, chegou ao campo das exposições de arte, completando com ela os assuntos já abordados em suas teses de mestrado e doutorado. Entre os anos de 1996 e 2000, desenvolve pesquisa sobre a comunicação no espaço das exposições de arte contemporânea, em parceria com uma comissão universitária francesa. Passa pequenos períodos de tempo em pesquisas na França, como que reatando a ligação com um lugar que já lhe era importante na infância.

Agora se encontra na diretoria do MAC novamente, em gestão até 2010. Quando perguntada sobre os motivos de sua ligação tão longa com a Universidade, diz ser o gosto pelo estudo e pesquisa que a mantém aqui. “Estudei e toda minha carreira profissional se desenvolveu aqui. Nem sei me imaginar fora da USP! Sempre me voltei para a vida universitária e acadêmica. A universidade é o campo por excelência para a construção desse projeto: estudo, pesquisa e divulgação para o próximo do que você consegue colher”, declara.

O perigo na porta de casa

Crianças desaparecem próximas de suas casas – esse pesadelo pode acontecer a qualquer família, mas pode também ser evitado

Matéria da Revista Espaço Aberto, novembro de 2009
Por Mariana Franco

Em revistinhas, cartazes, no verso dos recibos dos pedágios ou das lotéricas, em caixas de leite e e-mails, vemos fotos de crianças desaparecidas. Apesar de nos depararmos com essas evidências diariamente, achamos que esses dramas só vão bater na porta dos outros, não nas nossas. Anualmente 204 mil pessoas desaparecem no Brasil, sendo 40 mil só de crianças e adolescentes. Destes, cerca de 15% não retornam aos seus lares. Mas como, afinal, desaparece uma criança?

“Nem sempre, como se pode imaginar, o desaparecimento de uma criança é feito por um terceiro, um raptor. Muitas crianças saem de casa voluntariamente, em geral por problemas no ambiente familiar”, explica Gilka Gattás, coordenadora do Projeto Caminho de Volta, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

O Caminho de Volta realiza um trabalho de auxílio às famílias de crianças e adolescentes desaparecidos que tenham registro em Boletim de Ocorrência. O auxílio nas buscas é feito a partir de um rastreamento genético (DNA) da família para ser cruzado com as informações genéticas das crianças que são encontradas, para sua identificação. Além disso, trabalha com acompanhamento psicológico das famílias e das crianças, quando encontradas.

Como esclarece Gilka, grande parte dos desaparecimentos de crianças são casos de fuga, cujos motivos são complexos, mas são, em sua maioria, aliados a um convívio familiar conflituoso. É essa a explicação também da grande reincidência de casos de fugas – há registros de crianças que fogem de suas casas e retornam mais de quinze vezes.

Benedito Rodrigues dos Santos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal, realizou uma pesquisa com crianças que saíram de casa em São Paulo e em Nova York. Apesar das grandes diferenças entre os países, os resultados encontrados foram semelhantes.

“É o mau convívio familiar que leva essas crianças às ruas. Temos um verdadeiro descompasso entre a composição clássica de família e a realidade das famílias brasileiras. Vemos famílias recombinadas nas quais a distribuição de afeto é causa de conflitos, famílias com problemas de alcoolismo, drogas ou que utilizam a punição corporal como forma de educação cotidiana. Essas relações influenciam negativamente o desenvolvimento de uma criança”, afirma. Linamara Rizzo, médica também integrante do Caminho de Volta, lembra que “criança precisa de educação e escola, mas também de um convívio social e familiar bom para seu desenvolvimento”.

Parte dos desaparecimentos, porém, não se encaixa nos casos de fuga. São casos de real subtração por terceiros, e esses são muito difíceis de serem resolvidos. “São crianças que desapareceram em circunstâncias parecidas e das quais não se tem notícia por longo tempo. Desaparecem brincando na porta de suas casas, no caminho da escola ou da padaria sozinhas, sempre muito próximas de casa”, explica Ivanise Espiridião da Silva, presidente da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD/Mães da Sé).

“As crianças que desaparecem são em geral de nível socioeconômico muito baixo, que passam muito tempo sozinhas, tornando-se alvos fáceis. Aquela mãe que tem três, quatro, cinco filhos e é mãe e pai deles, sai cedo para trabalhar e os deixa sozinhos em casa.

Alguém oferece uma carona ou pede uma informação a essas crianças e elas não têm noção do perigo que estão correndo”, continua.

Medidas muito simples de prevenção, como não deixar seus filhos saírem desacompanhados à rua, orientá-los para não conversar e não aceitar nada que estranhos lhes ofereçam, fazê-los memorizar seu nome completo, os nomes dos pais, endereço e telefone de casa, podem ser eficientes.

“Às vezes as dicas e orientações dadas às crianças parecem simples, banais, mas nos casos concretos verificamos que muitas crianças são subtraídas ou colocadas em situações de risco atraídas pela oferta de doces, brinquedos, presentes. A informação para esses casos é realmente essencial”, afirma Ana Cláudia Machado, delegada do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas do Estado do Paraná.

O registro e busca de um desaparecido deve ser feito imediatamente. Existe uma subnotificação muito grande dos casos de desaparecimento – muitas famílias não chegam às delegacias, e muitas das que chegam não conseguem fazer o Boletim de Ocorrência. “Existe um mito de que se deve esperar algumas horas para fazer o BO, pois a criança pode estar na casa de algum amigo ou só perdida. Essas são horas preciosas que reduzem imensamente a chance de a criança ser encontrada com vida”, afirma a médica Linamara.

“Quando a busca não é imediata, se há espera de 12, 24 ou 48 horas, a probabilidade dessa criança não ser encontrada é muito maior. Se a delegacia se recusar a iniciar uma busca imediata, os pais devem buscar o Conselho Tutelar ou a Corregedoria de Polícia”, complementa Ana Cláudia.

A dor de um filho perdido




A filha de Ivanise, Fabiana Espiridião da Silva, desapareceu há 13 anos, quando tinha 14 anos de idade. Após o episódio, ela fundou a Mães da Sé para auxiliar outras mães que passavam pelo mesmo drama.

“Minha filha sumiu a 120 metros de casa. Nos primeiros meses após o desaparecimento dela eu estava chegando ao limite da loucura. Não dormia, não comia, só tomava café e fumava um cigarro atrás do outro. Passei uma madrugada procurando por ela pela Praça da Sé, na República, no Anhangabaú. Acontece que nós, enquanto mães, não estamos preparadas para perder nossos filhos. Estamos preparadas para que eles nos enterrem.

A dor de ter um filho desaparecido é muito maior do que a dor de ter um filho morto. Se eu descobrisse que minha filha está morta, teria um luto real. Teria saudades dela para sempre, mas teria certeza do que aconteceu. Mas eu não sei, e isso me incomoda o tempo todo. Hoje, minha filha está com 27 anos, e eu fico me perguntando: Como será que ela está? Será que engordou? Emagreceu? Se está viva, por que nesses 13 anos nunca deu notícias? Se morreu, por que o corpo nunca foi encontrado?

Acontece que quanto mais o tempo passa, mais a dor vai ficando só nossa. As outras pessoas vão esquecendo, vão tocando suas vidas, mas só as mães nunca vão esquecer. O sentimento acaba sendo só nosso. É um vazio, como se tivessem arrancado parte de mim, porque arrancaram realmente. É algo que não desejo a ninguém, e por isso é importante a prevenção, por parte dos pais, das escolas e da comunidade.

Nos 13 anos de trabalho da Mães da Sé, 2.122 pessoas foram encontradas. Delas, 196 foram meninas encontradas mortas. Eu digo a essas mães: ‘Pelo menos sua busca terminou, você sabe o que aconteceu’. Mas em cada uma dessas pessoas que nós encontramos, minha Fabiana vive um pouquinho. Essas mães são muito importantes. Nós formamos aqui uma família, unida pelo mesmo sentimento e pelo mesmo objetivo”, relata.

Da saída de casa à prostituição



Pesquisa aponta para ligação entre conflitos familiares e fatores sócioeconômicos com a entrada de adolescentes na exploração sexual

Matéria da Revista Espaço Aberto, novembro de 2009

Por Mariana Franco


A pesquisa Desaparecimento e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Estado de São Paulo, realizada pelo projeto Caminho de Volta, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), teve por objetivo jogar luz sobre uma questão até então obscura: a relação entre desaparecimento e exploração sexual.

Os resultados da pesquisa foram divulgados durante a I Jornada Internacional Sobre Desaparecimento e Exploração Sexual, acontecida em 6 e 7 de outubro, no Memorial da América Latina. Eles apontam para uma relação próxima, mas nem sempre óbvia, entre os dois acontecimentos e ressaltam a complexidade dos fatores envolvidos.

Na maioria dos casos examinados pela pesquisa, entre Boletins de Ocorrência e dados de uma ONG da Baixada Santista, fica claro que os fatores comuns para o desaparecimento e exploração são os problemas socioeconômicos e conflitos no ambiente familiar pelos quais passam as crianças e adolescentes. Muitas meninas saem de casa devido a problemas intrafamiliares, sejam maus-tratos, violência, abuso sexual, alcoolismo ou brigas constantes e, nas ruas, acabam entrando na prostituição para conseguir se sustentar.

Richard Estes, professor da Universidade da Pensilvânia, EUA, que estuda a exploração sexual na América do Norte, explica: “Uma vez que a criança foge de casa, nas ruas, o que tem a oferecer para sobreviver? Por alguns dias pode vender alguns pertences, se os tiver, mas depois só tem o seu corpo, e por isso a ligação entre desaparecimento de crianças e exploração sexual é tão próxima”.

Renata Coimbra Libório, especialista em Psicologia do Desenvolvimento Humano em Situações de Risco, da Unesp de Presidente Prudente, acompanha na cidade adolescentes inseridas na prostituição. Muitas das meninas têm trajetórias parecidas: conflitos dentro de casa que as levam para as ruas e necessidades materiais que as fazem ver a entrada na prostituição como única alternativa. Elas também não se adaptam nas escolas – as instituições, professores e diretores têm dificuldade para acolhê-las e integrá-las aos outros alunos. É expressiva ainda a ocorrência de problemas psicológicos e/ou psiquiátricos nessas adolescentes, apresentando casos de depressão, mutilação e tentativas de suicídio.
Para Renata, a existência da exploração sexual e prostituição de adolescentes é um problema claramente ligado à exclusão social gerada pela sociedade, que falha no oferecimento de espaço para essas adolescentes que rompem laços com suas famílias.

Além disso, uma questão cultural faz com que em geral exista denúncia dos casos de exploração de crianças, mas não os de adolescentes. Há um falso pensamento de que as adolescentes escolhem essa vida conscientemente e que por isso não precisam de proteção. A pesquisa da FMUSP alerta, inclusive, para esse dado importante: os registros de exploração e abuso sexual em Boletins de Ocorrência têm números muito abaixo da realidade.

Essa faceta do problema, lembra Renata, está intimamente ligada ao machismo presente na nossa sociedade: muitos casos de abuso sexual não são denunciados por causa da mentalidade de inocentar o homem, pois ele estaria seguindo seus “instintos” e “necessidades”, não sendo culpado, então, pelo abuso. Como citou Eduardo Rezende de Melo, presidente da Associação Brasileira dos Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e Juventude, “o ser humano está desde sempre relacionado à violência, e isso afeta nossa capacidade de tolerância, o que é inadmissível”.

A inserção em uma realidade de violência explica ainda outros resultados surpreendentes da pesquisa feita na Baixada Santista. As adolescentes envolvidas com a prostituição não se sentiam exploradas, nem entendiam a exploração como violência. Isso porque estão acostumadas a um tipo de sociabilidade que as leva a encarar esse comportamento como natural.

“Essas meninas não compartilham da nossa concepção burguesa ocidental de sexo vinculado ao amor. Para elas o sexo é uma moeda de troca, meio de se obter dinheiro, favor ou proteção, e isso lhes parece comum”, explica Tatiana Landini, professora da Unifesp que participou da pesquisa.

Para a psicóloga Renata Libório, o trabalho para começar a reverter a situação passa por duas linhas. Uma na educação, na qual a escola deveria trabalhar com as crianças, desde o ensino fundamental, condutas auto protetoras e que as incentivassem a compreender a diferença entre uma vida sexual desejada e vida sexual abusiva. A outra é a questão cultural, em que a sociedade teria de aprender a não aceitar esses problemas como naturais, e denunciar o que muitas vezes fica velado.

Renata, entretanto, não deixa de lembrar onde está a raiz do problema. “O problema da exploração sexual de menores está ligado aos problemas socioculturais históricos, e dificilmente teremos uma solução para isso, enquanto estivermos dentro desse sistema econômico de extrema exploração do ser humano”, afirma.

Acordo internacional facilita combate ao tráfico de seres humanos

Cooperação entre FMUSP e Universidade de Granada avança na identificação genética de crianças desaparecidas

Matéria da Revista Espaço Aberto, novembro de 2009
Por Mariana Franco


Ao final do primeiro dia de palestras da I Jornada Internacional Sobre Desaparecimento e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em 6/10, foi firmado um acordo de colaboração entre a Faculdade de Medicina da USP e a Universidade de Granada, Espanha, para o projeto DNA – Prokids. O projeto pretende lutar contra o tráfico de seres humanos mediante a identificação genética das vítimas, principalmente menores, e seus familiares.

Jose Lorente, do Departamento de Medicina Legal e Forense da Universidade de Granada, explicou que estrangeiros menores de idade que entram ilegalmente na Espanha têm garantidos por lei a permanência no país e o acesso aos direitos básicos como alimentação e educação. Isso faz com que muitas crianças e adolescentes, provenientes principalmente da África, cheguem sozinhas ao país, atravessando o Estreito de Gibraltar, para que depois de completar a maioridade, possam trazer também seus familiares.

Esses menores, sozinhos em um país desconhecido, são presas fáceis para aliciadores que os levam para a exploração sexual ou para a adoção ilegal. Existem ainda redes bem estruturadas de tráfico de seres humanos, e a Espanha é um destino conhecido de imigrantes para exploração sexual – lembramos ainda dos casos de brasileiras impedidas de entrar no país por suspeita de irem para trabalhar na prostituição.

“Lamentavelmente não há muitos casos de cooperação entre a polícia europeia e a de outros países na questão de imigração e desaparecimento de menores nas áreas fronteiriças. Há casos em que localizamos as menores como objeto de exploração sexual, mas é muito difícil identificar em seus países suas famílias. É necessária a utilização de técnicas de DNA ou de fotografia para permitir essa identificação”, relata Lorente.

“O Dna – ProKids é um programa que pretende ter dados de DNA das crianças de todos os países do mundo, principalmente daqueles que estão fora de suas famílias, em abrigos ou nas ruas, para cruzar esses dados com os de famílias que perderam seus filhos. Isto deve ser feito dentro de cada país, com programas como o Caminho de Volta, e dentro de uma cooperação internacional. O acordo que se firmou aqui é para facilitar o trabalho nessa área”, conclui.

Respirar para emagrecer

A percepção corporal e a capacidade de unir o corpo à vida, aos sentimentos e sensações, são imprescindíveis para a perda de peso
Matéria de Revista Espaço Aberto, outubro de 2009
Por Mariana Franco

Sentar-se, tirar os sapatos, sentir os pés no chão e a respiração fluindo. Afinal de contas, em que isso poderia auxiliar no emagrecimento?

Esta pode ser a pergunta a passar pela cabeça de alguém que chega na atividade aberta do Prato. Por cerca de vinte minutos, os participantes ficam sentados em silêncio, olhos fechados, convidados a perceber cada parte de seu corpo e sua respiração. Depois trocam as experiências que tiveram durante a atividade em uma conversa.

“Lembrei-me durante a atividade da sensação que tenho ao dormir, quando a gordura me oprimia, me impedindo de respirar. É uma situação horrível. Por causa disso, sinto necessidade de emagrecer”, relatou Cristina (nome fictício), uma das participantes do grupo.

Marília Salgado, psicóloga do Prato, explica que o trabalho de estímulo à percepção corporal é importante para que se tome consciência das necessidades e alertas que o corpo nos comunica. “As pessoas muitas vezes tratam seus corpos como objetos, como máquinas que devem funcionar. Há um distanciamento entre esse corpo e a vida da pessoa, suas sensações, sentimentos, desejos. As pessoas chegam aqui e nos dão seus corpos como objetos. Elas não querem emagrecer, querem uma receita para que nós as emagreçamos, mas não é o que fazemos”, afirma a psicóloga.

Rosiane (nome fictício), que fora à reunião pela primeira vez, manifestou sua decepção com o tipo da atividade. “A gente vem e quer um resultado já, uma receita do que pode ou não comer. Quando percebe que não é assim, fica triste. Mas é preciso continuar, né?”

“Usualmente percebemos que pessoas obesas fazem coisas demais, têm necessidade de preencher todo seu tempo, e têm assim um maior distanciamento do lado afetivo-emocional de seu próprio corpo. Essas pessoas costumam ser mais racionais e se cobram muito também. Muitas vezes, exatamente por isso, elas sabem de tudo que têm de fazer para emagrecer, mas não conseguem colocar em prática” continua Marília.


Sônia (nome fictício), terapeuta natural e graduada em letras por duas vezes pela USP, relata exatamente essa disparidade entre a teoria e a prática. “Estou participando das atividades há cinco meses. Por enquanto estou aprendendo, mas nem sempre consigo colocar em prática.”

“Para emagrecer é necessária uma mudança de hábitos. Dentro dessa mudança, e necessária também um diferente modo de relacionar-se com o corpo. É um desafio dar-se um tempo para perceber-se, é uma mudança que deve ser gradual. Mas para atingir o emagrecimento, para conseguir por em prática aquilo que se sabe, a pessoa precisa ter a junção de seu corpo à sua vida, seus sentimentos, desejos, sua história”, conclui Marília.